O que esperar da Rio + 20?



O certo seria esperarmos que depois de 20 anos da Rio 92, o mundo representado pelos países signatários do primeiro evento no Rio, a cúpula da terra, estivessem com o dever de casa totalmente pronto.

Que todo o arcabouço legislativo em matéria de proteção ambiental não somente estivesse em vigor, mas efetivo, com a sustentabilidade na ordem do dia.

É verdade que muito se avançou e que bem ou mal todos já começam a compreender a necessidade de se proteger o meio ambiente.



Cada vez mais estudantes em várias universidades, de variadas áreas do saber, começaram a dirigir seus estudos para a seara ambiental.

Ao mesmo tempo, poucos cidadãos no Brasil fazem a coleta seletiva em seus lares de forma regular.

A Convenção do Rio tem 27 princípios para serem aplicados pelos países, além da agenda 21 (agenda de transição – cenários prospectivos com passado, presente e futuro).

É inegável que mesmo que a Rio + 10, em Johanesburgo, tenha sido um bom encontro de países amigos, com pouca efetividade, muito se avançou internacionalmente a partir daí para que outros instrumentos fossem sendo firmados como: o Protocolo de Montreal (Camada de Ozônio), Protocolo de Kyoto (Clima em especial redução de emissões), Protocolo de Nagoya (Biodiversidade e repartição de benefícios), Protocolo de Cartagena (Biossegurança).

No direito internacional, muito se discute sobre o caráter cogente e imperativo de aplicação destes instrumentos internacionais, o denominado enforcement, isto é a obrigatoriedade destes atos internacionais.

O maior benefício que a Rio + 20 poderia efetivamente conseguir seria a extrema sensibilização sobre a necessidade uma organização nos moldes da OMC (Organização Mundial do Comércio) voltada para a seara ambiental, com poder sancionatório (proposta capitaneada pela França).

É certo que hoje é impensável pensar em meio ambiente sem se abordar o viés econômico. 


A nossa Constituição Federal instrumento normativo avançado já delineou isso em 88, ao colocar a proteção ao meio ambiente como princípio da ordem econômica. E, certamente, as discussões na Rio + 20 abordarão esse cenário, inclusive o da mudança de eixo na economia mundial.

Os países mais populosos, como Índia e China padecem de sérios problemas ambientais e significativos avanços econômicos, especialmente este último tem impactado toda a economia global e tem contribuído para aumentar significativamente o avanço das emissões de carbono e outros gases danosos à atmosfera.

Há dificuldade em se determinar qual o impacto que o planeta ainda pode sofrer para que a humanidade possa ter avanços sociais.

Nesta equação observamos que a população planetária chegou aos 7 bilhões de pessoas e que há um grande contingente populacional nas áreas urbanas e diminuição da população do campo.

A dignidade da humanidade em um ambiente revestido de complexidade exige que se coloque na Rio + 20 quais serão os indicadores a serem perseguidos pelas nações no “PIB Felicidade Humana”.

Vamos privilegiar segurança, saúde, educação, renda, água de qualidade, energia sustentável, alimentação, democracia, respeito racial e às demais minorias étnicas, culturais, etc? 

Ou se estes indicadores passam pelo conceito individual de que a felicidade humana está, sobretudo, ligada à ideia do conforto imediatista e sem parâmetros de sustentabilidade e equidade, inclusive intergeracional.

Sim, porque a utilização dos recursos naturais passa pela desigualdade no cenário presente, mas a desigualdade no compartilhamento de recursos naturais pelas gerações futuras, especialmente quanto aos recursos naturais não renováveis.

A ciclagem na natureza, com o ciclo da água, o ciclo do nitrogênio e fósforo tão sensível para a agricultura, o uso da água doce, o quanto de impacto climático a humanidade poderá suportar, a necessidade de mudança no aproveitamento da terra com a redução do desmatamento, dentre outros temas, todos estes estarão clamando na Rio + 20 por proposições que afetarão a condução da economia mundial nos próximos anos, a qual deverá imperiosamente migrar cada vez mais para uma economia sustentável.

Vale ressaltar que não somente a pobreza e a necessidade de promover a prosperidade e qualidade ambiental devam ser perseguidas - porque no cenário presente uma impacta na outra gerando um expressivo passivo ambiental - mas a pergunta mesmo que deveria ser feita para o cenário futuro é qual a riqueza que efetivamente queremos e muito mais precisamos e poderemos ter.

O que é efetivamente qualidade ambiental da humanidade? É certo que é mais comida na mesa, mais saúde e segurança, porém, para outros segmentos, é o celular, os carros, e todas as demais comodidades modernas.

O problema é revestido de complexidade porque a humanidade não se encontra toda na mesma etapa de desenvolvimento, o que gera a necessidade de variados sistemas de governança local, regional e global com estreita relação entre si.  

Se não fizermos nosso dever de casa direito desta vez, a humanidade certamente prosseguirá no seu caminho dialético, porém dissociando o mundo do dever ser e do poder ser e ter, com o mundo do ser, no qual padeceremos todos, até aqueles que acham que tudo isso não passa de papo de ecochatos.